Direito Público, Infraestrutura e Regulatório
Valor Econômico

Resultado reflete revisão de contrato

Fim da obrigação de construir nova pista e pagamento de 20% da receita anual em vez de outorga fixa influíram no desfecho do leilão, dizem especialistas

O resultado do leilão do Aeroporto Internacional Tom Jobim, o Galeão, no Rio, surpreendeu especialistas pelo resultado final. A Aena ganhou com uma oferta de R$ 2,9 bilhões, ágio de 210,8% sobre o lance mínimo de R$ 932 milhões. Na avaliação dos especialistas, o desfecho positivo é consequência de mudanças no contrato de concessão, as quais reduziram riscos regulatórios. Também contribuiu a previsão de saída da Infraero do negócio, definido no edital. A estatal detinha 49% do consórcio RioGaleão, concessionário do terminal desde 2013.

Alguns fatores pesaram a favor do resultado, na visão dos técnicos. Foi fixado pagamento de 20% da receita anual da concessão à União, em vez de um valor fixo de outorga. Também se determinou o fim da obrigação de construir uma nova pista de pousos e decolagens. Para os especialistas, o resultado do leilão demonstra que pode haver interesse do setor em outras concessões, como a do Santos Dumont, no Rio, embora não haja decisão de licitar o terminal.

Claudio Frischtak, sócio da Inter.B, disse que o ponto de partida para o resultado de ontem foi a limitação do número de passageiros do Santos Dumont. O economista citou ainda o crescimento do Galeão, o potencial do turismo do Estado e a modelagem do certame como fatores que ajudaram o leilão. “Ninguém coloca dinheiro na mesa se não apostasse no Brasil, mesmo com todos os problemas. É uma sinalização relevante de crescimento mais sustentável do país.”

André Paiva, consultor sênior da Tendências, avalia que a evolução no número de passageiros influenciou a decisão dos investidores. Para Paiva, esperava-se uma postura menos agressiva da RioGaleão. Ao mesmo tempo, a saída da Infraero do negócio garante mais autonomia aos novos controladores do terminal: “Acho que isso mostra que as operações aeroportuárias têm grande potencial de consolidação”, disse Paiva.

Joelson Sampaio, professor da Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (FGV EESP), salientou que a saída da Infraero passa por aspectos societários e de governança que deixam de existir. Por ser estatal, a Infraero tem as amarras previstas em lei que podem impedir qualquer novo investimento: “Quando a Infraero sai, retira qualquer barreira que possa existir.”

David Goldberg, sócio-diretor da A&M Infra, destacou que o Galeão é um ativo fácil de avaliar por não demandar investimentos elevados. Segundo ele, o terminal complementa o portfólio da espanhola: “A Aena conhece melhor o terreno em que está pisando e consegue alavancar as sinergias por estar presente com uma grande estrutura no Brasil”, afirmou.

O presidente da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan), Luiz Césio Caetano, disse que a participação de três empresas confirma o bom momento e a política de uso logístico do Galeão: “Consolida o Rio como importante porta de entrada no país”, disse, em nota. “Com o Galeão, o potencial de exploração de rotas regionais e internacionais são significativas”, disse Paulo Dantas, do escritório Castro Barros Advogados.

https://valor.globo.com/empresas/noticia/2026/03/31/resultado-reflete-revisao-de-contrato.ghtml